domingo, 26 de fevereiro de 2017

Ó pá, a sério?

Parece que o dinheiro corrupto foge de Portugal quando Pedro Passos Coelho está no governo, mas vive confortavelmente em Portugal quando António Costa é Primeiro Ministro. Bem me parecia que António Costa não era de confiança; agora tenho a certeza...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Destruição criativa

Stephen Mihn, numa op-edu da Bloomberg, apresenta uma breve história do sistema de saúde americano e de como foi o resultado de uma série de acidentes. Não foi planeado e tem sobrevivido décadas, mas dados os custos crescentes está a entrar em declínio. Diz Mihn que, a meio da década de 60, quase 80% das pessoas tinham alguma forma de seguro de saúde; hoje em dia, o nível de cobertura através do emprego apenas contempla pouco mais de metade da população.

Quando o Affordable Care Act, vulgo Obamacare, foi introduzido, os críticos especulavam que o número de aderentes seria baixo, mas acabou por exceder as expectativas. O número de pessoas afectadas não inclui apenas os que compram seguro através de Obamacare, mas também, por exemplo, aqueles que estavam excluídos do mercado de seguro de saúde pelas seguradoras e que, após o Obamacare, deixaram de poder ser discriminados. O Obamacare também permite que jovens até 26 anos de idade possam fazer parte do plano de saúde dos pais.

Dan Gaba, um especialista em seguros de saúde, construiu uma folha de cálculo no Google onde estima o número de pessoas que perderão seguro de saúde se o Obamacare for repelido; neste momento, a estimativa dele é de 23,902,871, ou seja, cerca de 7,4% da população americana. (A folha de cálculo discrimina o número de afectados por representante do Congresso.)

Uma das medidas que Paul Ryan quer introduzir é limitar os benefícios fiscais das pessoas que obtêm seguro de saúde através de emprego. Neste momento, o prémio do seguro de saúde via emprego stá 100% isento de impostos tanto para a porção que cabe ao empregado, como ao patrão. Note-se que o prémio do seguro de saúde para quem compra via Obamacare não é 100% isento de impostos; mas dependendo do rendimento da pessoa, pode ser parcialmente deduzido do rendimento tributável. Quem tem baixo rendimento, pode ainda receber subsídios para comprar um plano de saúde via Obamacare. Muitos patrões também oferecem aos empregados Flexible Spending Accounts, onde se pode alocar uma porção do rendimento pré-imposto para despesas de saúde.

Paul Ryan também quer modificar o Medicare, o plano de saúde dos reformados, de forma a que se torne mais como um mercado de planos de saúde (que é o que é o Obamacare). Muitos reformados estão apreensivos acerca de modificações e já se exprimiram no Twitter.

Ou seja, o plano do GOP para repelir o Obamacare e modificar o actual sistema de saúde americano irá tirar benefícios e acesso a muita gente. Stephen Mihn acha que será tão destrutivo, que não seria surpreendente que os EUA acabassem por criar um sistema de saúde universal.

Hã?!?

Depois de contar que tenho problemas de audição, duas das minhas amigas disseram-me que também tinham. Tenho a impressão que não ter uma audição perfeita é capaz de ser muito mais comum do que as pessoas pensam. Como já aqui disse, de vez em quando é chato porque os amigos e família acham que somos uns grandes chatos quando dizemos que não compreendemos o que foi dito e precisamos de clarificação. Ver TV e cinema também não é uma experiência 100% conseguida se nos escapa algum diálogo.

Mas, nem tudo é mau: pelo menos para mim, não ouvir bem também é uma grande conveniência. Estar num sítio e não conseguir distinguir certos registos de som permite-me divagar mais facilmente. Num dos voos de regresso da minha viagem de Washington, D.C., incomodou-me o barulho do motor do avião e pensei que chato seria ter de ouvir aquilo melhor, se fizesse a tal operação e fosse um sucesso. Encostei a minha cabeça à mão esquerda e tapei o ouvido mais competente. O som do motor ficou mais manso e eu mergulhei no meu mundo. Talvez tenha sido nessa altura que decidi que não fazia sentido esta operação.

FLouçã no Banco de Portugal

Confesso que não sei muito bem para que serve o Conselho Consultivo do Banco de Portugal. Mas, gostem ou não dele, Francisco Louçã é professor catedrático de economia e é dos melhores economistas (estou a falar dos académicos) portugueses. Achar, como vi pelas redes sociais, que ele não serve para para o Conselho Consultivo, seja lá sobre o que for que o consultem, é apenas e só preconceito ideológico.

Declaração de interesses
Foi meu orientador de teses de mestrado e foi o arguente principal das minhas provas de agregação. Uma arguição feroz que deixou a minha família na assistência com as mãos suadas.

Do mundo português

Um dos vários mistérios para os quais não tenho solução é o de ter sempre falhado em convencer estrangeiros da genialidade do Zeca Afonso. Tentei várias abordagens. Às vezes falei do contexto, do país periférico, final, moribundo, do minho a timor, onde se achava que os foguetões dos americanos no céu iam irritar Deus; o país europeu onde se morria à fome; expliquei que ele ia aprender música às aldeias desse mesmo país que nunca abandonou, e compunha coisas desta genialidade redentora; mas outras vezes só pedi que ouvissem. Nunca resultou. 

Continuarei assim a achar que ele é um génio do mundo, que só pode ser entendido em Portugal.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Um terrorista, sff!

Da CNN (ênfase meu):

"One of the ways the White House hopes to make its case is by using a more expansive definition of terrorist activity than has been used by other government agencies in the past. The senior White House official said he expects the report about the threat from individuals the seven countries to include not just those terrorist attacks that have been carried out causing loss of innocent American life, but also those that have resulted in injuries, as well as investigations into and convictions for the crimes of a host of terrorism-related actions, including attempting to join or provide support for a terrorist organization."

Ou seja, se não há terrorismo dada a definição actual de terrorismo, muda-se a definição até haver terrorismo.

"First, some intelligence officials disagree with the conclusion that immigration from these countries should be temporarily banned in the name of making the US safer. CNN has learned that the Department of Homeland Security's in-house intelligence agency, the Office of Intelligence and Analysis -- called I&A within the department -- offered a report that is at odds with the Trump administration's view that blocking immigration from these seven countries strategically makes sense.

It's not clear if this was the conclusion of the I&A report but many DHS officials have said they do not think nationality is the best indicator of potential terrorist inclinations."

Bom, bom, seria a nova definição dizer que quem é nacional daqueles sete países é, por definição, terrorista. Problema resolvido!

Antonomásia

No Público:

"PIB da maior economia ibérica cresceu em 2016 mais do que era antecipado por toda a gente, incluindo o Governo."

Porque dizer "PIB de Espanha" dá muito trabalho, "PIB espanhol" ainda é pior, e ele há tantas economias ibéricas, que ninguém sabe os seus tamanhos relativos assim de cor e salteado, logo o uso da antonomásia é mais do que justificado. E viva a perífrase, caramba!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Momentos WTF à la Texas

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, estava a ouvir as notícias do Texas quando me caiu o queixo. Falava-se a propósito das despesas de saúde, especificamente das despesas que se tem quando se vai a um hospital que pertence à rede da nossa seguradora, mas o médico que nos vê não pertence à rede, apesar de estar num hospital que pertence. Por exemplo, imagine-se um paciente que vai às urgências do hospital onde deve ir, de acordo com a seguradora, mas é visto por um médico que não tem um contrato com a seguradora. Como o paciente não sabe se o médico pertence à rede ou não, deixa-se ser visto, mas depois quando recebe a conta apanha uma grande surpresa porque é exorbitante. Este problema acontece por todos os EUA, mas é particularmente comum no Texas e até há recomendações do governo estatal. Antes de irmos ao médico temos de investigar o hospital, médico, e outro pessoal. Imagine-se alguém ter um acidente de carro, ficar inconsciente, e antes de poder ser visto ter de ter estes cuidados. Esta gente é completamente pirada, mas adiante.

Sorte, informação, e retorno

Uma das discussões que tenho acompanhado ultimamente é a questão do retorno de investimentos por via de fundos activos (em que há um gestor que activamente procura melhorar o retorno) vs. fundos passivos (fundos que são construídos para serem representativos do mercado ou de uma porção do mercado e que não estão sujeitos a gestão activa). Os investidores activos compram e vendem no mercado de forma a explorarem falhas de mercado -- muitas vezes, a falha que exploram é assimetria de informação -- e acabam por ter um papel importante em dar informação ao mercado e em ajudar os preços a reflectir essa informação, pois os preços são o mecanismo condutor de informação no mercado. Os fundos passivos são free-riders dos fundos activos, pois apenas imitam o mercado, e os preços actuais de mercado reflectem a informação que os fundos activos dão ao mercado: ou seja, têm o proveito sem ter de gastar dinheiro a descobrir informação e a arriscar com base no que descobrem.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um profeta

Em 1831, numa missão do ministério da justiça francês, o magistrado Alexis de Tocqueville e o seu amigo Gustave de Beaumont permaneceram nos EUA cerca de nove meses com o objectivo de estudar o sistema prisional americano. No início de janeiro de 1832 regressaram a França. Dois anos depois, em 1834, Tocqueville, com 29 anos, publicou a primeira parte Da democracia na América. O livro tornou-se um best-seller e o autor famoso em França e no estrangeiro – principalmente na Inglaterra, uma espécie de segunda pátria do escritor. Durante anos, Tocqueville foi membro do parlamento da monarquia orleanista e Secretário de Assuntos Estrangeiros, por um curto período, na Segunda República. Em 15 de Dezembro de 1850, numa carta ao seu amigo Loius de Kergorlay, enviada de Sorrente, confessa que “valho mais no pensamento que na acção”. Se alguma coisa permanecer de si neste mundo será mais o “rasto do que escrevi do que a lembrança do que fiz”. Via os anos dedicados à política activa como estéreis, sob muitos ângulos. Ao mesmo tempo, sentia-se mais maduro e experiente, iluminado por “luzes mais verídicas sobre as coisas humanas e uma noção mais prática dos detalhes”. Agora, aos 45 anos, no declive da vida, Tocqueville queria escrever outra obra. Mas qual o assunto a escolher? Era essa a sua dúvida na altura. Tinha de escolher algo que o animasse e fizesse sair de si tudo aquilo que pudesse dar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sinais dos tempos

Ontem estive numa reunião de directores de centros de investigação, presidentes e vice-presidentes com uma secretária de estado. Não contei a divisão entro homens e mulheres mas aquilo estava e equilibradíssimo. A haver maioria era de mulheres.
Houve três pessoas que tiveram de sair antes da reunião acabar. Todos homens. Não sei os motivos dos outros 2 que saíram antes de mim, mas eu tive de sair às 19h porque tinha de tomar conta das minhas filhas, porque a minha mulher não estava em casa.

Século XXI no mundo ocidental

Escrito por um dirigente do partido republicano dos EUA e publicado ontem, ou seja em 2017. Ou seja, no século XXI num país ocidental.

Sara Bichão em Houston









quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Desobedecer


Na véspera de Donald Trump instituir o controle de imigração a que alguns chamam de "Muslim Ban", fui ao Museu do Holocausto, em Houston, assistir à exibição do filme "Désobéir -- Aristides de Sousa Mendes", que os americanos traduziram como "Disobedience". Tratava-se de um programa patrocinado pelo Museu do Holocausto e pelo American Jewish Committee.

A assistir ao filme estavam presentes duas pessoas da família de Aristides de Sousa Mendes: eram ambos netos, Louis-Philippe Mendes, que conta 56 anos de idade e apresentou o filme, vive no Canadá e o outro mais jovem, vive mesmo em Houston; foi a primeira vez que se encontraram. Também lá estava um outro rapaz descendente de judeus que tinham recebido vistos. Lembrei-me, mais uma vez, de que todos nós somos frutos do acaso: os nossos antepassados tiveram de sobreviver a muitos eventos para nós existirmos e o mesmo acontecerá com os nossos descendentes.

Nessa famigerada Sexta-feira, em que se celebrava o "International Holocaust Remembrance Day", Aristides de Sousa Mendes foi homenageado em Houston, mas não tive oportunidade de comparecer -- o Consul Honorário de Portugal também não compareceu, aliás, Portugal não teve presença oficial na cerimónia.

Tinham passados seis dias desde a tomada de posse de Donald Trump e ver aquele filme naquela altura foi uma experiência muito emotiva para mim. Senti orgulho de um português ter salvo tanta gente -- estima-se que tenha emitido cerca de 30.000 vistos, não se sabendo ao certo quantas pessoas foram salvas --, mas vergonha de ter sido apenas um consulado português. Deviam ter sido muitos mais porque é essa a génese de Portugal e de ser português: Portugal é um país que existe porque um tal de Afonso Henriques se lembrou de desobedecer ao Papa.

No final do filme, não fui apenas eu a ficar emocionada, pois uma senhora americana sentiu necessidade de comentar a agradecer e dizer que o filme era muito actual e que servia de inspiração para os tempos que se viviam. Mal sabia ela que, no dia a seguir, os tempos que se viviam iriam tornar-se ainda mais estranhos e parecidos com um enredo de filme.

Donald Trump acha que por ter sido eleito tem o poder de fazer tudo aquilo a que se propôs sem que ninguém o questione. Já vi várias pessoas a achar que deixá-lo fazer tudo é um sinal de Democracia: foi eleito, temos de aguentar. Isto não é Democracia! Um governante que faz tudo é um ditador; em Democracia quem governa nunca pode fazer tudo porque tem uma oposição com quem tem de negociar e um enquadramento legal a que está sujeito. Pareceu-me uma ideia evidente depois de ter pensado nela, mas não é assim tão evidente porque só pensei nela claramente no outro dia.

Há três dias saiu a decisão de um dos processos contra Trump iniciados após o suposto "Muslim Ban". Dizia a Juíza Leonie Brinkema, da Virgínia, que "maximum power does not mean absolute power." O Presidente não tem poder absoluto; tem de trabalhar dentro do que lhe permite a lei e o Parlamento. Obedecer ao Presidente não é obrigatório.



Vassourada

Se o défice de Mário Centeno fosse a vassoura da casa dele, poderíamos imaginar uma situação em que se ia visitar Mário Centeno a casa e estava tudo sujo. Ao ver-nos torcer o nariz, Mário Centeno oferecer-nos-ia a prova de que estava tudo bem: a vassoura que tinha comprado há um ano, que raramente usava. A vassoura estava como nova, ou seja, funcionaria perto do limite máximo de eficiência. A casa estava suja, mas a vassoura bem conservada era prova mais do que suficiente de que havia grande potencial para a casa estar limpa.

Assim é a economia de Centeno: no papel conseguiu "controlar" o défice; mas reduziu a taxa de crescimento do PIB de 1,6% para 1,4%. Diz o Eco que a dívida pública em 2016 estima-se em 130,5% do PIB, um máximo histórico se acabar por ser confirmado, e acima dos 129% de 2015.

Não se preocupem: a vassoura tem potencial; a competência de Mário Centeno para a usar é que não. Deve-lhe faltar uma vassourada...