sexta-feira, 21 de julho de 2017

A invasão das couves

Hoje decidi deixar o carro em casa e ir a pé até ao café aqui do burgo almoçar. É uma pequena aventura porque algumas das ruas não têm passeio e é difícil navegar quando parte do itinerário não está planeado para peões, a modos que passo grande parte do caminho a pensar que há uma grande probabilidade de ser atropelada. Na restante parte penso que, como já não estou acostumada a passear na rua ao pé de carros, se calhar, é essa a causa da minha pequena fobia. Vivo tão perto de restaurantes, lojas, e paragens de autocarro, que, decidi há uns meses, devia aproveitar e viver mais à "europeia".

Magia



Continuo a ler o livro "Dinner with Persephone -- Travels in Greece" de Patricia Storace. Como o tópico em voga em Portugal é o racismo, recordei-me de uma passagem que li no outro dia, que abordava o tema do preconceito racial, e na qual a autora fala de como a discriminação não é uma coisa estática: nada garante que quem discrimina hoje não seja discriminado amanhã.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

É a mile, é a mile

Sobre as declarações de André Ventura haveria várias coisas a dizer. No entanto, vou notar apenas dois aspectos, que até estão relacionados. 
Por aqui e por acolá, tenho ouvido (lido, sobretudo) gente a desculpar o candidato à Câmara de Loures com recurso ao argumento de que ele só verbalizou um pensamento que é partilhado por muita gente. Ora, eu gostaria de ver Portugal governado por pessoas que vão um bocadinho além do senso comum. É aquela coisa do déspota esclarecido, mas sem a parte do despotismo, só a do esclarecimento.  
A segunda observação que me ocorre fazer é a de que, se eu só for capaz de identificar os ciganos quando eles estão vestidos de preto num bairro social, é possível que acredite que todos eles vivem dependentes da ajuda do Estado. É o preconceito a gerar mais preconceito. Aquela ali em baixo é a Leonor Teles. Faz filmes e ganhou um Urso de Ouro em Berlim. Não anda nas feiras. Quantos reconheceriam que é cigana, com aquele cabelo tão curto?





Mood: very mellow



P.S. Parece que este disco saiu há menos de um mês... Obrigada, Shazam!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Incongruências

"You don't have a shit planet because you have clear thinking people — it doesn't happen. And you don't have shit people and a healthy planet. It will not happen. We're reflections of each other. That's all that is."

Tori Amos, 1992

Inovação sexual

Muitas vezes, penso em antigamente, em como eram as coisas. Só que as coisas nunca foram só de uma maneira antigamente, houve uma evolução ao longo da história. Surpreende-me bastante que as pessoas estejam tão agarradas ao que as coisas são hoje e pensem que chegámos à cúspide da evolução: vai ficar assim até ao resto do tempo porque não pode ser melhor do que isto. Depois sai um telemóvel novo e a malta larga o velho.

Nas relações humanas também é assim. Imaginem quando as pessoas começaram a escrever cartas pessoais umas às outras. Não acham que muita gente deve ter achado uma grande anormalidade? Devia ser mais confortante enviar uma mensagem por alguém -- um intermediário de confiança --, pois uma carta dava a possibilidade de muitas pessoas lerem o que alguém tinha escrito, enquanto que um intermediário de confiança saberia ficar calado.

Já pensaram em inovação sexual? Houve uma altura em que sexo normal e desejável era um em que a mulher tinha uma camisa com um buraco e o homem penetrava-a pelo buraco da camisa quando lhe apetecia ter sexo. Hoje em dia, ter sexo assim, é capaz de ser visto como violação. Sexo como se tem hoje era uma coisa depravada, reservada para quem era imoral, logo associado a amantes e prostitutas.

O sexo homossexual também evoluiu, por exemplo. Na Grécia Antiga, era normal haver relações homossexuais, especialmente nas camadas mais altas da sociedade, desde que se observasse certos costumes relativos à idade dos intervenientes e ao seu papel na relação. Note-se no entanto, que os costumes de homens maduros se associarem a parceiros muito jovens tanto dava para relações homossexuais como heterossexuais, pois quem era penetrado tomava um lugar passivo e inferior na relação, logo não era uma coisa que ficasse bem num homem maduro. Pelos cânones actuais, o que se fazia na Grécia Antiga era uma coisa parecida com pedofilia.

Por falar em pedofilia, vi o filme francês Ma Loute (2016) este fim-de-semana que passou e é interessante como o tema é lá abordado. Mais não digo porque estrago-vos a surpresa, se decidirem ver o filme. (Ah, se ficam enojados facilmente, preparem-se para umas cenas macabras, mas que não têm a ver com sexo.)

Pois, sexo... Se calhar, o Woddy Allen, no filme Sleeper (1973), tinha razão acerca do futuro que nos espera. Realizou-se um inquérito recentemente e parece que os americanos não têm tanto sexo como tinham antes. Ninguém sabe muito bem a razão, mas achei piada a uma parte do artigo da CNN em que se dá a entender que o que é definido como sexo está a mudar, ou seja, a Internet está a contribuir para uma onda de "inovação sexual" e parece que definir sexo não implica necessariamente incluir penetração.
Herbenick, also an associate professor at Indiana University School of Public Health, added that "we may be having less sex, but I would argue it's better sex. We actually don't know if singles are having 'less sex' since the (survey) never defined sex and doesn't ask about the many kinds of sex play that people engage in (including masturbation, oral sex and sex toy play), especially during hookups. It is possible that singles are having less frequent intercourse but about the same (or more or less) of other kinds of sex, such as oral sex or hand stimulation or sex toy play."

~ CNN, 19/7/2017



Gypsy

To the gypsy
That remains
She faces freedom
With a little fear

~ Stevie Nicks



terça-feira, 18 de julho de 2017

Reportagem 25

Foi finalmente anunciada a publicação numa data ainda a determinar dos resultados definitivos da aturada investigação em torno da pergunta o que é o homem, investigação que durou já muitos séculos,

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A gentileza

[Começo por dizer que vou meter a foice em seara alheia e, como tal, peço já desculpa por algum eventual erro ou falta de rigor. No essencial, julgo que os meus argumentos não sairão afectados por tal.]

Este fim-de-semana, o Expresso publicou a entrevista que fez a António Gentil Martins. Havia incêndios em Alijó e Mangualde, mas foram as declarações do médico a pôr o país on fire. Aqui eu devo já esclarecer que não me passaria pela cabeça silenciar o homem. Reconheço-lhe todo o direito a ter a sua opinião e reconheço-me o direito a achar essa opinião abjecta. Como agora sempre acontece, o debate fez-se em trincheiras e cheio de rotulagens imediatas.

Gostando eu de ser um bocadinho do contra, vou pegar numa citação que não tenho vista referida. À pergunta «É católico praticante?», responde Gentil Martins «Sou. Vou à missa todos os domingos e dias santos». E aí temos um entendimento do que é ser-se católico: é ir à Missa. Pronto, assim faz mais sentido. Eu fico sempre muito surpreendida quando vejo pessoas que se autoproclamam cristãs ser sectárias. Das minhas longíquas sessões de catequese, guardo João 8:1-11. É possível que eu tenha dado ao episódio do não apedrejamento da mulher adúltera uma interpretação demasiado livre, mas encontro ali uma enorme mensagem de tolerância. Claro que, quando ser católico é cumprir o calendário ritualístico, a coisa muda de figura. Aí abre-se espaço para o julgarás.

E que julga António Gentil Martins? Segundo ele, a homossexualidade é uma anomalia. Uma pessoa vai ao dicionário e vê que anomalia significa «o que se desvia da norma, da generalidade»; é sinónimo de «irregularidade». Posto em termos estatísticos, nada a opor. Ser homossexual é uma anomalia. Ter gémeos é uma anomalia. Ser caucasiano é uma anomalia. Ter um QI de 120 na escala de Wechsler é uma anomalia. Já afirmar que anomalia foi utilizada na referida acepção é coisa de quem tem QI inferior a 90 ou não está de boa-fé. Porque as palavras foram estas: «Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correcto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio de personalidade.» Médias e probabilidades?! Nãaaaa. Moral. O que Gentil Martins quis dizer - parece-me claro - é que é uma «deformidade, monstruosidade», sentido que também surge no dicionário. Aliás, ele não quis dizer, ele disse-o; afirmou que não está correcto e que é um desvio de personalidade.

Ora, a 17 de Maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Até então, tinha sido considerada um distúrbio mental, o tal desvio de personalidade. Que um médico, entrevistado na qualidade de médico, perpetue uma noção de 1952 que não encontrou evidência empírica a seu favor parece-me ser caso a levar à Ordem dos Médicos. Seria o mesmo se tivesse defendido a lobotomia. E nada disto tem que ver com coarctar a sua liberdade de expressão. Só, eventualmente, a sua liberdade de ser médico: compete à Ordem avaliar.

Logicamente, o homem, o católico, tem direito às suas concepções morais. Mas olhemos para a sequência da entrevista. Observam-lhe que casou tarde para a época. E ele explica que «Queria escolher bem. Tem de existir uma similitude de ideias e aquela atração que não sabemos porque aparece. Sentir amor por outra pessoa.» Até aqui, totalmente de acordo. Só não percebo o acrescento «Sou totalmente contra os homossexuais, lamento imenso.» E, por isso, a pergunta impôs-se: «Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?» Porque, de facto, aquela sequência sugere que a homossexualidade não é uma questão de amor, de afecto, com tudo o que o amor envolve. E a resposta, que inclui a parte da anomalia, começa com «Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres.» Não é exactamente o mundo, é mais a espécie humana, mas, certo, não percamos o raciocínio com questões que podem ser matéria de estilo. E vamos lá aos argumentos...

Em primeiro lugar, se a homossexualidade é a tal anomalia estatística, a sua ocorrência em nada ameaça a sobrevivência do Homem. Se a preocupação é essa, talvez possam libertar o pessoal eclesiástico do dever de castidade, porque aquilo de ter de haver homens e mulheres só funciona se eles puderem copular. O que me leva ao segundo ponto: o imperativo biológico não precisa do amor romântico para nada (eu acho muito estranho ser necessário notar isto a um médico, mas teve de ser). Se nós achamos (e eu acho) que o Homem é mais que pura biologia e que o sexo vai além da reprodução, o argumento contranatura deixa de colher. Um bocadinho de coerência exige-se, por respeito ao ser biologicamente determinado a pensar que somos. Repudiamos um casamento heterossexual em que só um dos elementos é infértil e o sabe? Não, pois não? Então como pode ser isso argumento contra a homossexualidade? Eu percebo que a religião, dado o seu papel normalizador e perpetuador da sociedade, o tivesse considerado um pecado quando a concepção não tinha alternativa médica. Agora que ela existe, a homossexualidade que não se tenta conformar a um padrão heterossexual não é nenhum óbice ao aumento da natalidade. Curiosamente, os que se mostram tão preocupados com a extinção do mundo decorrente de relações afectivas que não podem biologicamente gerar filhos são os mesmos que querem impedir estas pessoas de ser pais e mães com recurso a técnicas de reprodução assistida. Algo aqui me parece inconsistente. Mas pode ser uma anomalia cognitiva minha...

Adenda: Depois da polémica, Gentil Martins enviou uma carta ao Expresso. É caso para dizer que é pior o esclarecimento que a entrevista.
Que ele nunca desejou a celeuma, nós podemos adivinhar. Provavelmente, teria preferido uma ovação, elogios públicos e a subscrição total das suas opiniões. Se não previu a reacção, enfim... Ajuda naquela parte de quem o defende usando a idade como desculpa. E, sim, nós percebemos (estou a ser optimista, quiçá) que não eram os méritos desportivos de Cristiano Ronaldo a estar em causa.
Sobre nunca ter querido ofender a mãe de Ronaldo. Ora bem... Alguém escreve «O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe. Mais: penso que uma das grandes culpadas disto é a mãe dele. Aquela senhora não lhe deu educação nenhuma.» e não quis ser ofensivo??? A sério???!!! Se eu disser a Gentil Martins que um dos filhos dele é um estupor moral e que a culpa é dele, que foi, como confessa na entrevista, um pai «mais do que ausente», ele não vai ficar ofendido? Tenha dó! Até as pessoas que têm um QI não anómalo são capazes de ver isto.
E, caro Gentil Martins, os homossexuais não sofrem com a homossexualidade per se, sofrem com a discriminação de que são alvo, plasmada em entrevistas como a sua.

O futuro do trabalho e desigualdade

No Público de hoje, com Miguel Portela.

domingo, 16 de julho de 2017

Experiências e tangibilidade

"Things aren’t all so tangible and sayable as people would usually have us believe; most experiences are unsayable, they happen in a space that no word has ever entered, and more unsayable than all other things are works of art, those mysterious existences, whose life endures beside our own small, transitory life."

~ Rainer Maria Rilke, "Letters to a Young Poet"

Tarde divertida

Até dizem que estragos esperar.





quinta-feira, 13 de julho de 2017

Estado tem/sem graça

Não estou a perceber muito bem a reestruturação do Governo, que está em decurso hoje. Obviamente, Ministros não serão demitidos, mas os novos Secretários de Estado que já vi (Internacionalização, Indústria, Assuntos Fiscais, Presidência do Conselho de Ministros, Habitação) não têm nada a ver com Tancos, nem com Pedrogão Grande. Se percebi bem a retórica ante-crise, estas áreas até são áreas em que se dizia que o Governo estava a ter muito sucesso, logo vão se ver livre do pessoal de sucesso -- têm lógica, em Portugal.

Ocorre-me que talvez o pessoal que está a ser demitido seja mesmo competente e já tenha bons empregos garantidos fora do governo, enquanto que o pessoal que seria demitido por causa das crises não poderia arranjar emprego em lado nenhum a ganhar um ordenado "decente" porque os portugueses levariam a mal -- só temporariamente porque é Portugal.

Depois também não compreendo como é que o PM vai de férias a meio da crise, logo não trabalha na reestruturação do governo, mas ao fim de menos de uma semana após o seu regresso já tem a reestruturação feita ao mesmo tempo que gere as crises. É para parecer competente? O povo diz que "depressa e bem, há pouco quem..."

P.S. Quero ver o rácio homens/mulheres dos novos nomeados.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Que giro!

Encontrei por acaso uma marca de roupa americana que desconhecia por completo: a J.McLaughlin. Quando visitei a página de Internet, achei curioso que uma das formas como se distinguem da concorrência é através da qualidade dos tecidos, tendo eles um conjunto de tecidos exclusivos. Numa das páginas, têm um guia de tecidos em que explicam os vários tecidos que usam e pode-se seleccionar para ver a roupa por tipo de tecido. Um dos tecidos chama-se Madeira cloth e é fabricado de fio português. Explicam eles:

Lógica moderna

Nos EUA:
Diz Donald Trump, Jr., uma "pessoa de alta qualidade", que não fez nada de mal pois, apesar de ir para uma reunião com intenção de receber ajuda do Governo russo para influenciar a eleição americana, não houve ajuda nenhuma, logo está tudo bem. Só falta dizer que poupou trabalho ao FBI, se os tivesse chamado.

Em Portugal:
Diz o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas que parte do material que foi roubado em Tancos já estava fora do prazo de validade e não pode ser usado eficazmente, logo não é tão mau como parece. Só falta dizer que os ladrões pouparam dinheiro e trabalho ao estado para se livrar do material obsoleto.