domingo, 4 de dezembro de 2016

O referendo italiano

Em Itália está a ser votado um referendo que dará muito mais poder à Câmara dos Deputados, esvaziando os outros órgãos, nomeadamente o Senado.

Acresce que, com as novas regras, é praticamente impossível que não haja maioria absoluta na Câmara dos Deputados, ficando assim o partido do governo com freio livre para fazer o que quiser. 

Junte-se a isto o facto de Itália ser o berço do fascismo, que muito recentemente teve um primeiro-ministro de direita tão populista como Berlusconi e que, à esquerda, tem um Beppe Grillo que não tem nada que o recomende e concluir-se-á que o chumbo da proposta a referendo é o único voto possível para muita gente. Se eu votasse. poderiam contar com o meu voto contra.

Que se faça disto um referendo à participação no Euro e um plebiscito ao governo em funções é um erro. Mas, ao contrário do que diz Vital Moreira, quem está a cometer o erro não é o eleitorado, é a classe política.

Um déspota

Desde que o Alfred morreu, o cão que me resta, de seu nome Chopper, com 8 anos, decidiu que é o dono da casa. Rotinamente, coloca-se à minha frente e começa a ladrar em tom refilão. Não posso sentar-me ao computador porque sua Excelência não aprova. Se ligo a TV para ver algo no Netflix, só estou em paz se lhe apetecer usar-me como travesseiro de aquecimento. Ia agora escrever um post sobre reformados americanos, mas o meu déspota de estimação informou-me logo que tal não era permitido. Talvez queira ir passear, mas esteve todo o dia de chuva. 

Resignei-me a escrever-vos no telemóvel, apesar de já ter dificuldade em ler letras pequenas, ser preguiçosa para usar óculos de leitura e de a App do Blogger ser uma porcaria. O meu iPad, versão 2, está velho e as apps já não funcionam com grande confiança. O laptop está mais velho do que o iPad e já não confio para usá-lo como laptop, logo prefiro tê-lo numa secretária. Estou aqui a tentar decidir-me se tento educar o cão, fechá-lo num quarto sozinho, que acho uma crueldade, ou comprar tecnologia mais moderna. Depois lembrei-me que o IPad e os computadores são feitos na China. 

Após a morte de Fidel Castro, algumas pessoas contrapuseram a ideia de que os americanos são uma corja consumista, o que é pior do que a corja comunista de Cuba. Uma amiga minha italiana disse que esperava que Cuba não se americanizasse e que ficasse como está. É estranho que ela tenha dito isto porque, quando decidiu fazer um post-doc, foi para os EUA que ela veio, não foi para Cuba. Para fazer férias baratas, foi a Cuba. A China pré-americanização era muito mais pobre do que é agora, mas o ocidente aproveitar-se dos trabalhadores chineses baratos é imoral, até porque cria desemprego nos países do Ocidente, que é outra imoralidade.

Pronto, estou presa na terra dos dilemas morais, com a agravante de ter um déspota como cão e um pseudo-déspota como futuro presidente. O melhor é terminar isto porque temo que o post desapareça, se der um ataque de censura à app do Blogger. Se houver erros, os meus olhos estão como a minha tecnologia: obsoletos. 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Um triste fim

Já poucos se lembram, mas em 2012 François Hollande apresentou-se ao eleitorado francês como o campeão anti-austeridade. Ele prometia um combate sem tréguas “à política cega da austeridade”, ele ia pôr os mais ricos a pagar a crise. A esquerda europeia rejubilou. Estava encontrado um novo herói. Afinal de contas, o homem era o líder da segunda maior potência europeia. Cinco anos depois, com níveis de impopularidade históricos, anunciou que não se recandidatava a um segundo mandato, facto inédito na V república francesa. A esquerda hoje renega o homem e trata-o quase como um traidor. Entretanto, do Tsípras, o tipo da Grécia, lembram-se?, é melhor nem falar. Desgraçadamente, com o tempo, o poder parece destruir os heróis e campeões anti-austeridade, transformando-os, de caminho, em traidores. É um triste fim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ser insignificante

Desde Julho, tenho andado a tomar conta de girinos que nasceram no meu jardim. São criaturas insignificantes, mas para mim são muito importantes. Quando nasceram e vi tanto bichinho, pensei na probabilidade de algum ter uma deficiência. Há uns dias, encontrei o primeiro deficiente: quando a metamorfose começou, reparei que uma das pernas era anormal, faltando-lhe uma articulação. Fora de cativeiro, o meu deficiente já teria morrido, pois a probabilidade de sobreviver quase cinco meses até completar a metamorfose é quase zero.

telemóvel esquecido no quarto

tenho um amigo que é dj há uns 17 anos, e quase não usa discos há uns 15. maquinetas. daquelas de fazer um barulho enorme e abanar as almas. máquinas do caralho, portanto. um dia destes tenho que lhe perguntar o que é que ele põe na declaração de IRS. será que, fiscalmente, ele é igual a um artista de variedades que toque nel monteiro em casamentos, bapizados e bodas de diamante? tinha a sua piada, se ele fiscalmente fosse quase o nel monteiro.
e o IVA das putas? será que devia ir tudo à taxa máxima? é capaz de não ser o mais indicado. um broxe pode ser um luxo um bocado burguês, mas uma punheta está muito perto de ser um bem essencial.

mas o meu amigo dj. disse-me uma vez que tinha conhecido o valter hugo mãe, e que o gajo era um idiota. a minha admiração pela obra do valter hugo mãe deixou-me um bocado desconsolado. mas o meu amigo exagerar era algo longe de ser inédito, por isso acabei por me esquecer do assunto. passado uns tempos comecei a seguir  o valter hugo mãe e os posts dele no facebook - que passam maioritariamente por opiniões disfarçadas de poesia, que não chegam a ser nem uma coisa nem outra. e não que eu desrespeite as opiniões do senhor, mas o valter hugo mãe do facebook estava aos bocadinhos a estragar-me o valter hugo mãe dos livros. e os livros dele são importantes demais para mim. ainda que às vezes lhes tenha que fugir porque a escuridão é um lugar onde se entra de cabeça mas se sai muito devagarinho, por mais bonita que seja. e assim lá se foi o valter hugo mãe do meu mural.

nesse aspecto, como em outros, o valter hugo mãe tem muito em comum com o saramago, imperador absoluto do reino da magia, mas assustador a puxar para o ridiculo quando descarregava o cartuxo politico em direção a um tipo de esquerda que saber fazer contas como eu.

sobra o lobo antunes. que é rude, que não dá entrevistas, e quando as dá está a usar o pulover do meu pai de 1975, a fumar para a camâra e a mandar tudo para o caralho com a violência de quem se está devidamente a cagar para aquilo tudo. porque o universo do génio e a realidade estão a buracos negros de distância e tentar juntá-los há de dar uma trabalheira do caralho, e provavelmente acabar em desastre. e é por isso que ignoro o valter hugo mãe que está  fora dos livros, ou o que o saramago dizia.

e isto tudo porque estava há um bocado um gajo no autocarro a dizer ao outro que um doutoramento em economia não servia de nada porque quem o tinha continuava a não saber nada sobre economia. e achei que em vez de lhe responder, o melhor era dar uma de lobo antunes, acender um cigarro imaginário e manda-lo com este texto a puta que o pariu.

Mera mira moralia

Douglas Murray, na última Standpoint:
"People should live a little more and react a little less."

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cada cabeça, sua sentença

A Bloomberg tem uma reportagem especial acerca de como os casais gerem e pensam a sua vida financeira. É apenas uma colecção de histórias recolhidas nos EUA. No final, falam de relações poli-amorosas com uma pessoa de uma firma de advogados e, a certa altura, dei-me conta que nunca tinha pensado nestas coisas.

Pensava eu que era uma mulher moderna porque, há 18 anos, tive dois namorados simultaneamente. Não faço ideia como aconteceu, não foi uma coisa propositada, mas também não andei às escondidas de ninguém. Dava muito jeito: com um havia uma vida social muito activa, com o outro havia conversas mais estimulantes. Uma vez, os meus amigos perguntaram aos namorados, à minha frente, porque é que eles me partilhavam sem armar bronca e eles disseram "Because it's Rita". Depois acabaram o curso ao mesmo tempo e foram à vida. Foi um grande choque ir de dois para zero, repentinamente.

Na entrevista, dizia-se que o enquadramento legal tem, mais ou menos, 20 anos de atraso relativamente às dinâmicas sociais. O que virá daqui a 20 anos, pergunto-me.

Dados, música, e sexo

"In addition to surveying 30,000 people around the globe, we used Apple Watches, Nest Cameras, iBeacons and a custom-built app to collect biometric data from people in 30 homes. The pilot experiment yielded a wealth of interesting insights into how music influences what people do and how they interact with each other in the home. People who listened to music together moved closer together. They enjoyed their food more. They had more sex.

In an interview with Forbes, Daniel Levitin, a neuroscientist who helped designed the survey and interpret the data, said “for the first time we’re seeing evidence that the music causes people to feel closer to one another.” The magazine speculated that the experiment could represent the future of how science is conducted."


Fonte: Frank Orrico, Media Decoded

Se calhar, é ao contrário: pessoas que têm mais sexo, ouvem mais música...

Sinais dos tempos

Começámos a semana a tentar reaproximar Espanha e Portugal, com a visita de Filipe VI; hoje estamos a celebrar a ruptura entre Portugal e Espanha, com a queda de Filipe III (IV de Espanha).

O Estado-Regulador Portuguese style

Um modesto contributo meu em defesa da extinção das autoridades reguladoras em Portugal. Pela sua inutilidade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tendências de Natal

Caros leitores,
A Destreza das Dúvidas não queria ser remissa em informar-vos das novas tendências de Natal de Houston. Bem sabemos que ainda é Novembro, mas o Dia de Acção de Graças já lá vai, e este ano muita gente começou a decorar cedo porque estavam fartos da novela das eleições presidenciais.

Como podem verificar pelas fotos em anexo, a grande tendência deste ano é pendurar enfeites gigantes nas árvores exteriores, especialmente bolas: have some balls, will you? Para além disso, convém decorar a porta de entrada com enfeites também eles gigantes -- o Quebra-Noz é sempre uma opção actual -- e guirlandas de verdura natural ou artificial. Evitem pendurar as luzes de Natal no telhado, a fazer de conta que são pingentes, porque isso está fora de moda, mas podem sempre iluminar os carreiros do vosso jardim com luzes multicoloridas. Lembrem-se que estão também a ajudar o PIB nacional com todo este consumo de energia.

Esperamos que tenham uma trabalheira decorativa agradável e muito cuidado para não se electrocutarem a vós, nem aos vizinhos. Antes de subir a uma escada, certifiquem-se de que o equipamento é seguro e vocês não andaram a testar os vinhos que pensam servir na ceia. Não nos responsabilizamos pelos vossos acidentes e subscrevemos a política de tolerância zero.

Happy Holidays, que nós aqui somos politicamente (in)correctos!

Erro humano ou muito queijo?

O Wisconsin é conhecido pela produção de queijo, mas nestas eleições também será conhecido pela produção de votos. Em quatro distritos eleitorais diferentes, "erro humano" levou a que Trump obtivesse um total de pelo menos 5.000 votos que nunca existiram e que, entretanto, já foram retirados. Convenhamos que, estatisticamente, quatro erros humanos independentes serem todos favoráveis a Trump é muito improvável, ainda por cima foram descobertos antes de se começar a repetir a contagem de votos, que se iniciará amanhã. Antes destes erros serem identificados, um Tribunal Federal concluiu que o Wisconsin tinha alterado a delineação dos distritos eleitorais de forma a favorecer os Republicanos e a diluir o voto democrata, o que era inconstitucional, mas apenas é relevante para o voto legislativo.

A estimativa é de que irá custar $3,5 milhões para contar os votos no Wisconsin, quando inicialmente se tinha projectado que custaria $1,1 milhões. Só para terem noção do que isto é, o Green Party só conseguiu angariar $3,5 milhões durante o período eleitoral. Neste momento, Jill Stein já conseguiu angariar $6,6 milhões. Uma juíza do Wisconsin rejeitou o pedido de Stein de os votos serem contados à mão, logo, no final, o custo é capaz de ser inferior ao estimado pois o custo de recontagem é de $1,31 por voto, de acordo com o Milwaukee Journal Sentinel, o que parece ridículo.

Adenda: Pelos meus cálculos, o custo por voto será de $1,18 (ver votos aqui, que somam 2.975.313).

Que lógica tem isto?

Ainda acerca das declarações dos administradores da CGD, quem tem rendimento e património em Portugal tem de o declarar à Autoridade Tributária, ou seja, há uma entidade do estado português que já tem essa informação e, se as pessoas observam a lei, todos os anos a informação é actualizada. Se a informação de um ano para o outro flutua grandemente sem que haja causa aparente, isso deveria despoletar uma auditoria do contribuinte.

Resumindo, não percebo a lógica da recusa dos administradores em submeter as declarações de rendimento e património. Também se recusam a pagar impostos porque se acham no direito de não declarar os rendimentos e o património? Ou será que não queriam que essa informação fosse parar às mãos de pessoas em quem não confiam? Se há desconfiança, qual o motivo?