sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Reportagem 15

 Numa iniciativa inédita em território nacional e, tanto quanto foi possível apurar, também além-fronteiras, a Associação Cívica e Cultural Os Manhões, da vila de Manhões de c., inaugura hoje um LCD comunitário, sito no edifício da antiga escola primária, entretanto desactivada dada a vontade das crianças locais de pôr em prática pelo menos uma parte do ditado deitar cedo e cedo erguer, a saber, a segunda, ou seja, cedo erguer.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Aprender a aprender


O Diário de Notícias de hoje dá relevo, na primeira página, a uma frase que António Guterres terá proferido ontem, por altura do seu doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa: que os alunos devem aprender a aprender e não a “marrar nas sebentas” (referia-se, certamente, às suas lembranças de estudante). 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

You’re beautiful!


Foi numa Quarta-feira, que, num ímpeto do momento, telefonei à J. para saber se queria ir jantar fora, mas não a apanhei a tempo: estava cansada depois de um belo dia a jogar golfe, coisa que já sentia falta dado o inverno menos ameno que este ano temos tido em Houston. Combinámos para o dia seguinte e fui até casa dela, ao fundo da rua, buscá-la à porta. É raro a J. atrasar-se e, frequentemente, está pronta alguns minutos antes. 

Saí do meu carro, que tinha há menos de duas semanas, e ela ao vê-lo pela primeira vez imediatamente o admirou. Como tínhamos combinado, entrámos em casa da J. durante alguns minutos para conversar e beber um copo de vinho tinto, o que ela faz todos os dias, religiosamente, às 17h30m. Quando saímos, abri-lhe a porta do carro para entrar e liguei o aquecimento do banco dela na temperatura mínima para a não magoar — aos 92 anos, a pele da J. é frágil e ela toma medicamentos para controlar a espessura do sangue. Depois de, na última vez que visitou a minha casa, o meu cão lhe ter dado algumas nódoas negras só porque a cumprimentou, tento ser mais cuidadosa. 

Normalmente, a J. gosta de frequentar os restaurantes mais perto de casa, mas eu estava mais inclinada para irmos ao O’Porto Café, um pequeno bistro que serve pratos inspirados em cozinha portuguesa, italiana, e espanhola — é uma bocado fusão mediterrânea, apesar de Portugal não ficar no lado do Mediterrâneo, mas sim do Atlântico. O chefe, no entanto, é filho de um italiano e de uma portuguesa ou talvez seja ao contrário... 

Gosto de ir a este restaurante. Foi um dos primeiros em Houston que comecei a frequentar quando me mudei para cá, mas uma vez tive uma conversa com uma outra portuguesa que aqui vivia que me dizia que o bacalhau à Brás que era servido lá não era bom: o grande defeito é que não sabia ao bacalhau à Brás que ela fazia em casa. 

Achei uma crítica estranha porque, quando vou a Portugal, é raro qualquer prato saber ao que nós fazemos em casa, logo para mim é um critério meio-esquisito. Aliás, se eu quisesse que soubesse ao que faço em casa, fazia em casa, não ia comer fora... Mesmo o conceito de saber ao que se faz em casa é ilusório. Uma das minhas melhores amigas em Portugal tinha mãe goesa e muitos dos pratos que ela fazia sabiam a cominhos, o que eu adorava porque, na minha casa, quase nunca se cozinhava com cominhos, ou seja, cada casa tem o seu sabor.

Fomos pela Bissonett e a J., que ainda conduz, ficou feliz por não ter de passar pela via rápida que a assusta um bocado. Note-se que, ainda no ano passado, a J. foi a Austin de autocarro sozinha — mais de duas horas de viagem —, logo diverte-me pensar que uma via rápida dentro da cidade lhe causa ansiedade. Antes de chegarmos ao cruzamento da Wesleyan com a Richmond, entrei no parque de estacionamento e fui censurada pela minha companheira, que pensava que eu estava a tentar fugir ao semáforo, mas disse-lhe que tínhamos chegado ao strip mall onde ficava o restaurante. 

A minha mesa preferida fica junto à janela e nesse dia encontrava-se reservada. Duas mesas de jantar estavam livres: uma a meio do restaurante, outra mais para o interior. Escolhi a que ficava mais longe porque na mesa ao lado estava sentado um casal de pessoas mais velhas, o que achei encantador, pois gosto de observar pessoas: people-watching é um passatempo tipicamente americano!

Coube-me escolher o que comer e bebemos água porque já tínhamos tratado do vinho. Como os pratos são mais estilo tapas, achámos melhor partilhar várias coisas. Um dos pratos que escolhi foi pastéis de bacalhau, que são servidos com uma tacinha com molho picante. O molho não é tradicional, nem a J. gosta de picante, mas os pastéis não são maus de todo e ela apreciou-os bastante. Também impressionaram os nossos vizinhos do lado, o tal casal idoso, o suficiente para nos perguntarem o que era: eu respondi e a J., triunfante, explicou que eu era de Portugal e os pastéis de bacalhau eram uma comida tradicional portuguesa. 

Também petiscámos um queijo de cabra e, no todo, passámos uma noite bastante agradável. Para o final, o homem do casal ao lado disse à J., à frente da companheira, “You’re beautiful!” A J. agradeceu e ele acrescentou que ela tinha qualquer coisa que reluzia. Depois trocaram idades: eles tinham à volta de 87 e a J., com os seus 92, sentiu-se gloriosa: eram uns jovens, dizia amavelmente. Despedimo-nos e regressámos a casa ambas contentes.


Nessa noite, pensei no #metoo: num futuro próximo, será possível dizer a uma pessoa desconhecida “You’re beautiful!” sem que se seja acusado de assédio?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Procrastinar



Há uns dias, deu-me para andar a procurar vídeos da Marlene Dietrich e acabei por ver este filme dela: The Monte Carlo Story (1957), que está completo no YouTube. Já não me recordo o que causou tal busca, mas decerto que foi um ataque de procrastinação. (Eu sei, eu sei, tenho andado ausente, mas escrevo-vos posts na minha cabeça todos os dias -- só não os chego a publicar... My bad!)

Pronto, vou deixar-vos outra coisa gira: alguns pedaços da entrevista da Ruth Bader Ginsberg, Juíza do Supremo Tribunal dos EUA, a Poppy Harlow. RBG, como é conhecida, tem 85 anos e está fresca que nem uma alface...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Progresso

Ontem à tarde, nas notícias dos EUA, enquanto se tentava enquadrar a queda do mercado accionista, que chegou a estar 10% abaixo do máximo histórico, o que faz das quedas da semana passada e desta uma correcção e não apenas uma flutuação, a grande pergunta que se fazia era se o governo federal americano iria fechar outra vez à meia-noite. No All Things Considered, da NPR, entrevistavam-se membros do Congresso do lado dos Democratas e do lado dos Republicanos, num jogo de passa-a-culpa.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

How they met themselves

Elizabeth Siddal foi uma supermodelo que inspirou a parte mais importante das obras com interesse dos pré-rafaelitas. Gabriel Rossetti foi por sua vez um dos mais inspirado dos pré-rafaelitas, e manteve com a Elizabeth uma relação conturbada de doze anos, que viria a culminar com o suicídio dela com uma overdose de opiácios (tese que o Oscar Wilde viria a desafiar, sugerindo que foi Rossetti que a matou). 

No início da relação, em 1850, Rossetti começou a pintar um quadro que só viria a terminar praticamente no fim da relação com Elizabeth. Este dado é curioso – Rossetti foi um dos pintores mais produtivos dos pré-rafaelitas. Completou várias dezenas de quadros de Elizabeth e, quando estava apertado de dinheiro, pintava como se não houvesse amanhã. No entanto, demorou dez anos a terminar este quadro particular – um quadro aliás bastante medíocre, quando comparado com todos os outros que o tornaram famoso, e que hoje está literalmente escondido num museu em Cambridge (tem de se fazer marcação para poder vê-lo, numa cave). O quadro representa o próprio casal a encontrar-se consigo mesmo. Passeando num bosque, Rossetti e Elizabeth dão de caras com duas pessoas iguais em tudo a eles próprios, e têm uma reacção meio aparvalhada: ele desembainha a espada, sem que se perceba se é para atacar ou se defender; ela perde os sentidos. 

Olhando para o futuro, a partir de quando começou a ser pintado, ou para o passado, a partir de quando foi terminado, este quadro faz igualmente sentido. A partir do 1850, olhando para a frente, poderia refletir as ansiedades da paixão e as suas milhentas contradições – se for verdade que nos apaixonamos pela nossa imaginação do outro, e não por ele mesmo, o maior medo deve ser darmos de caras com a realidade. A partir do 1860, olhando para trás, refletiria o imenso choque perante o que falharam em se tornar – ela, que tinha o talento suficiente para ser patrocinada pelo crítico de arte mais conhecido do século XIX, mas que nunca veio a criar nada de memorável (quem é que hoje sabe quem ela é?); ele, que a manipulou para a tornar vulernável e dependente dele, e acabou por carregar com o peso dela nos braços. Se calhar o quadro também faz sentido se olharmos para ele como uma premonição final, dado que Rossetti viria em falhar em proteger Elizabeth de si própria (se ela se matou), ou de ele mesmo (se Oscar Wilde tiver razão). 

É uma obra tão maravilhosa como medíocre.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Ouro puro

O Gregory Dunne, aquele rapaz que entrou no filme "Who's That Girl?" com a Madonna, fez um documentário sobre a sua tia, a Joan Didion, que é tão bom, tão bom! Está no Netflix e chama-se "The Center Will Not Hold". Há uma parte que é descrita em baixo, nesta peça da The New Yorker, da qual me lembro nitidamente porque quando ouvi a resposta de Joan Didion fiquei estupefacta com a franqueza, mas também fiquei cheia de curiosidade de ler a senhora.

"In one of several genial interviews, Dunne asks Didion about an indelible scene toward the end of her Haight-Ashbury essay—which, as any student who has ever taken a course in literary nonfiction knows, culminates with the writer’s encounter with a five-year-old girl, Susan, whose mother has given her LSD. Didion finds Susan sitting on a living-room floor, reading a comic book and dressed in a peacoat. “She keeps licking her lips in concentration and the only off thing about her is that she’s wearing white lipstick,” Didion writes. Dunne asks Didion what it was like, as a journalist, to be faced with a small child who was tripping. Didion, who is sitting on the couch in her living room, dressed in a gray cashmere sweater with a fine gold chain around her neck and fine gold hair framing her face, begins. “Well, it was . . .” She pauses, casts her eyes down, thinking, blinking, and a viewer mentally answers the question on her behalf: Well, it was appalling. I wanted to call an ambulance. I wanted to call the police. I wanted to help. I wanted to weep. I wanted to get the hell out of there and get home to my own two-year-old daughter, and protect her from the present and the future. After seven long seconds, Didion raises her chin and meets Dunne’s eye. “Let me tell you, it was gold,” she says. The ghost of a smile creeps across her face, and her eyes gleam. “You live for moments like that, if you’re doing a piece. Good or bad.”

Fonte: The New Yorker, 27/10/2017

domingo, 28 de janeiro de 2018

Malandragem!

No dia 23 de Janeiro, comprei filme para a minha Fujifilm Instax Mini na Amazon: seis pacotes de 20 fotos cada, totalizando $85.86. Como sou forreta escolhi a entrega grátis, que é a que demora mais tempo. Entregaram hoje, ao Domingo, enquanto eu estava na sala a desfrutar o meu café, poucos minutos depois de ter terminado o último post aqui no blogue.

Ele há muita malandragem no mundo: então a senhora que me veio entregar o pacote não tinha nada que estar a trabalhar a estas horas e que companhia tão mal-gerida, que demora menos de uma semana a entregar uma coisa ao cliente — o pacote veio de Las Vegas, no Nevada, que fica a mais de 2300 Km de mim, ou seja, são mais de 21 horas de carro, mais tempo para dormir, refeições, etc. Em Portugal, que é um país pequenito, mas mais eficiente e civilizado, demoraria muito mais tempo.

(Des)igualdades

Não entendi as notícias sobre a creche dos miúdos dos trabalhadores da Auto-Europa. Já percebi que há quem ache mal que se trabalhe ao Sábado, mas quem é que vai trabalhar ao Sábado para tomar conta dos putos? Também gostaria de saber se os trabalhadores da Auto-Europa que são “prejudicados” por trabalhar ao Sábado são maioritariamente homens, enquanto que os trabalhadores que são “beneficiados” por trabalhar em creches ao Sábado são maioritariamente mulheres.

Já agora, acho que todos os portugueses deviam assinar um compromisso dizendo que, daqui para diante, só terão acidentes e ficarão doentes durante o horário normal de trabalho. Ao final de Sexta-feira, os doentes hospitalizados terão de ir para casa e só regressar ao hospital na Segunda-feira de manhã. Ah, e nada de frequentar transportes públicos, centros comerciais, cinemas, museus, restaurantes, cafés, etc. ao fim-de-semana porque toda a gente tem o direito a desfrutar de tempo com a família.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Engolir a pílula

“Pais e filhos”, publicado em 1862, é o melhor romance de Ivan Turguéniev (1818-1883) e um dos melhores do século XIX. Nikolai Petróvitch ouve por acaso uma conversa entre o seu filho Arkádi e o amigo Bazárov, um niilista radical – é, sem dúvida, a grande personagem do livro. Bazárov diz: “O teu pai é boa pessoa, mas é um homem antiquado, o tempo dele já passou.” Estas palavras desanimaram o “velho” Nikolai, na altura com quarenta e poucos anos. Apesar de viver no campo, este aristocrata generoso e culto esforçava-se por se manter actualizado e a par das modas intelectuais e políticas, havia lido os grandes autores, autores que a juventude via agora com desdém, considerando-os inúteis e uma perda de tempo. Nikólai desabafa então com Pável, o seu irmão mais velho: “Sabes do que me lembrei mano? Uma vez discuti com a nossa falecida mãe: ela gritava, não me queria escutar… Eu por fim disse-lhe: «a mãe não me pode compreender, pertencemos a duas gerações diferentes.» Ela ficou horrivelmente ofendida, e eu pensei: que fazer? A pílula é amarga, mas é preciso engoli-la. Pois agora chegou a nossa vez, e os nossos herdeiros também nos podem dizer: vocês são de outra geração, engulam a pílula.”
Turguéniev captou de forma genial uma questão intemporal. De uma forma ou outra, tarde ou cedo, temos de engolir a pílula. É a vida.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Contra a democracia

Em 2016, antes ainda da vitória de Donald Trump, Jason Brennan publicou o seu provocatório “Against Democracy”. Brennan parte de uma premissa: em geral, os votantes são uns ignorantes – os americanos, mas não há nenhum motivo para acreditarmos que os do resto do Ocidente são melhores. O cientista político vê a sociedade americana dividida em três grandes grupos. Os hobbits são as pessoas desinformadas, não sabem nem querem saber dos assuntos públicos e deviam abster-se de qualquer responsabilidade política – nos EUA correspondem, grosso modo, aos abstencionistas, mais de 40% do eleitorado. Os hooligans acompanham as notícias da política como quem acompanha as notícias do seu clube de futebol, ou seja, de forma completamente enviesada. Por fim, os vulcanos estudam os assuntos políticos com objectividade, ouvem os outros e ajustam se necessário as suas opiniões. Estamos perante tipos-ideais, para usarmos a terminologia de Max Weber. De qualquer maneira, a larga maioria dos americanos é hobbit, hooligan ou fica algures entre os dois.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Alternativas

Na Terça-feira, fui ao Tribunal da minha cidade para ser seleccionada para o júri de um julgamento. Não contei o número de pessoas que lá estavam, mas deviam ser mais de 30 porque estava programado haver quatro julgamentos, mas três foram cancelados -- cada julgamento precisa de 6 pessoas no júri, mas temos de ter em atenção que algumas saem porque têm conflitos de interesse, outras são excluídas pela defesa ou pela acusação.

Surpreendeu-me que, no meio de tanta gente, quase todos fossem brancos e predominantemente homens. Uma das formas de sermos desculpados do "dever de ser jurado" (traduzo assim "jury duty") é ter ao nosso cuidado uma criança de 12 anos ou mais nova, logo este critério deve excluir muitas mulheres. Eu devia ser a mulher mais jovem que lá estava e, para minha surpresa, fui a única seleccionada para participar no julgamento.

Como nunca tinha sido chamada para uma coisa destas, para mim foi uma experiência educativa, que ainda estou a processar. Recordei-me de um episódio que me aconteceu há uns anos, em que um colega meu, ao falar da evolução dos preços de uma commodity disse que havia três alternativas: ou o preço subia, ou descia, ou ficava na mesma, logo 33,3% para cada lado. Quando ele disse aquilo, tive uma reacção visceral imediata porque a probabilidade de um preço ficar na mesma de um dia para o outro é quase nula, logo os 100% são quase na totalidade divididos entre ou vai para baixo ou vai para cima. Mas aquele erro é muito comum...

Agora que penso nas escolhas do veredicto, pergunto-me que impacto terá na forma como as pessoas processam as suas alternativas. No caso da multa, os veredictos possíveis eram "guilty" ou "not guilty", mas o "guilty" tinha também a possibilidade de escolha de uma multa que ia de um mínimo de $1 a um máximo de $200. Quando o advogado de defesa instruiu o júri, disse-nos que perante a lei nós tínhamos de presumir inocência, logo qualquer dúvida devia dar um veredicto de "not guilty". Só que não é bem o caso porque o veredicto tinha de ser unânime, logo todos os jurados tinham de reconhecer ter uma dúvida para concluir "not guilty".

O caso era insignificante: uma multa por conduzir a 70 milhas por hora, numa área em que o limite está assinalado como sendo 60. No Texas, não há limite de velocidade máxima, mas temos de conduzir a uma velocidade que não é “unreasonable and imprudent under the circumstance then existing”. Se está assinalado um limite, entra em consideração a questão de limites de velocidade "prima facie", em que velocidades acima desse limite podem não ser prudentes ou razoáveis -- ou seja, é necessário avaliar as condições.

No julgamento, tivemos oportunidade de ver o vídeo da polícia em que a pessoa acusada ultrapassa os 70 mph por uns segundos e é parada pela polícia. Na minha opinião, não achei a velocidade perigosa, aliás estava tudo a conduzir a mais de 60 mph, quase a 70 mph, inclusive um camião, que penso colocar um risco maior, mas a minha dúvida, que era partilhada por outra pessoa, não foi suficiente para absolver porque há quem ache que 70 mph é o limite de perigoso. Dizia eu aos meus colegas que havia um carro à frente que ia mais rápido do que o da pessoa acusada, logo a velocidade da pessoa acusada inseria-se no argumento de "flow of traffic", só que me responderam que esse carro ia muito mais à frente e estava mais longe da polícia e alguém cometer uma violação e safar-se não serve de desculpa para safar quem é apanhado.

Tenho a ligeira sensação de que o meu papel de refilona não serviu a justiça; apenas serviu para minimizar a injustiça. O meu opositor principal disse-me que, se eu aceitasse dar um veredicto de "guilty", ele aceitaria dar uma multa de $1. Pensei nas alternativas: a pessoa ia a tribunal outra vez e corria o risco de ser culpada e ter uma multa maior ou não ia a tribunal e pagava a multa, que é mais de $1. Aceitei mudar o meu veredicto em troca da multa mínima. No final, o homem que me opôs perguntou-me o que eu fazia: sou economista.

Um outro senhor, muito mais discreto do que eu e que também estava disposto a dar o veredicto de "not guilty", veio ter comigo no final e disse que aquilo era o melhor que podíamos ter feito dada a composição do júri e sugeriu que déssemos os $6 que cada um recebeu em troca do nosso serviço à pessoa acusada e que lhe disséssemos "We're sorry, but this is the best that we could do under the circumstances". Assim fizemos e entregámos os $12.

Mas continuo insatisfeita e com vontade de refilar: estou a avaliar as minhas alternativas...

A morte da perícia

Tom Nichols publicou The death of expertise em 2017, depois do Brexit e da vitória de Donald Trump. Para Nichols, a morte da expertise não é sinónimo de um saudável cepticismo em relação aos especialistas. A morte da perícia é, antes de mais, um rancor ou ressentimento dos leigos para com os especialistas. Nesta fase pós-industrial, todos os cidadãos acreditam ser especialistas em tudo e mais alguma coisa.
Perante a morte da perícia, a explicação recorrente é acusar a internet. De facto, a internet é um extraordinário repositório de conhecimento e, ao mesmo tempo, uma fonte de conhecimentos errados. Mas esta explicação é demasiado simples. Os ataques ao conhecimento estabelecido têm uma longa história. A internet é apenas o elemento mais recente num problema com raízes profundas. Assim, além da internet, Nichols identifica mais três grandes causas da morte da perícia: as fraquezas humanas (a aversão à ambiguidade e à dissonância; a crença, bastante enraizada, num mundo ordenado) que nos levam a cometer erros sistemáticos (enviesamentos); a educação; e o novo jornalismo.
A educação poderia ser a solução de problemas como o “enviesamento da confirmação” ou das falhas e lacunas de conhecimento dos cidadãos. Infelizmente, a educação faz hoje parte do problema. O estudante é tratado como um cliente. O cliente paga e tem sempre razão. Esta tendência gerou efeitos altamente perversos. A necessária humildade do bom estudante deu, muitas vezes, lugar a uma arrogância sem fundamento, acompanhada de um conhecimento ilusório. Os estudantes não desenvolvem hábitos de autocrítica que lhes permitam continuar a aprender e a avaliar as complexas questões sobre as quais terão de deliberar e votar como cidadãos.
Por fim, os jornalistas profissionais enfrentam novos desafios na era da informação. No meio altamente competitivo dos media, os editores e produtores não têm mais a paciência – ou os meios financeiros – para permitir aos jornalistas desenvolverem a sua própria perícia ou um conhecimento mais profundo dos assuntos. Para mais, não há sequer provas de que a maioria dos consumidores esteja interessada em muitos detalhes. E as pessoas envolvidas na indústria das notícias sabem hoje que, se as reportagens não entreterem o suficiente, o público pode facilmente encontrar outras com um simples clique.
O desprezo pelos especialistas está a minar a democracia, conclui Nichols. Os representantes eleitos não podem dominar todos os assuntos e, por consequência, irão precisar sempre dos especialistas e de outros profissionais. Os especialistas aconselham; os líderes eleitos decidem. Para julgar o desempenho dos especialistas e as decisões dos políticos, os cidadãos devem familiarizar-se com os assuntos em questão. Tal não significa um estudo profundo sobre as políticas, mas exige interesse em obter uma literacia básica nos assuntos que afectam as suas vidas.
Quando os cidadãos se afundam na ignorância, perdem o controlo das decisões importantes. Pior, a democracia pode ser sequestrada por demagogos ignorantes ou as instituições democráticas podem, paulatinamente, cair na decadência. A democracia pode transformar-se numa tecnocracia autoritária. E este último ponto leva-nos ao "elitismo" - uma espécie de populismo virado do avesso - e ao livro “Against democracy” do cientista político norte-americano Jason Brennan de que falarei noutra oportunidade.

Contos zen para crianças boas 80

1.      Cavalgamos por aquele bosque cerrado, até chegarmos a uma clareira pequena, após atravessarmos um rio veloz, com os nossos cavalos já cansados, porque lutámos contra ursos e cavalgamos desde madrugada, sob a ameaça dos lobos, para chegarmos ainda nessa noite, ou entre a noite e a alvorada, sem parar um minuto que seja, nem perante o evidente cansaço dos cavalos, nem por causa de uivos aterradores, ou de árvores fantasmagóricas, à clareira pequena onde nos espera refúgio de ursos e lobos, alimento para cavalos e uma cama merecida junto a uma fogueira crepitante. Não somos salteadores, nem príncipes. As aventuras acontecem a qualquer pessoa.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Um mal bastante disseminado e democratizado

“Madoff: Teia de mentiras” (The wizard of lies) é o melhor filme que se fez até ao momento sobre a tragédia Madoff. Barry Levinson é um realizador competente, um bom artesão. Robert De Niro e Michel Pfeiffer cumprem bem o seu papel de casal Madoff. Em Dezembro de 2008, Madoff revelou à família a enorme fraude que andara a urdir durante mais de 16 anos. Foram os filhos que o entregaram à justiça, apesar de Madoff declarar várias vezes que se entregaria de qualquer maneira. Antes de mais, o filme centra-se na tragédia familiar. Os dois filhos morreram, entretanto. O mais velho suicidou-se com 46 anos em 2010. O mais novo morreu em 2014 de cancro, com 48. Madoff, agora com 79, espera pela morte na prisão. A mulher, Ruth, deixou de lhe falar e foi abandonada e ostracizada por todos, excepto por uma irmã, ela própria vítima das vigarices do cunhado. O filme aborda, de raspão, a incompetência dos reguladores, os quais não cruzam informação entre si, e são ingénuos ao ponto de acreditarem na palavra de um vigarista - onde é que já vimos este filme?
Madoff deixa no ar a pergunta se é ou não um sociopata. Claro que é, como o são muitos desses gurus empresariais e da alta finança. Gente especialista em contornar regras, atreitos a correr grandes riscos e sem um pingo de remorsos nas veias. A diferença de Madoff é que confessou e, por isso, está preso – a justiça americana também não é bem essa maravilha que às vezes se diz. Os outros sociopatas, os que puseram a economia mundial à beira do precipício, foram os primeiros a erguer-se e, muitas vezes, a aproveitar-se dos destroços que eles próprios provocaram.
Madoff diz várias vezes que o problema é a ganância das pessoas. Ele próprio recomendava aos seus clientes que não investissem mais de metade do seu dinheiro nos seus fundos. Mas os clientes não resistiam. Queriam mais e mais, e depois muitos ficaram a arder, sem nada. Isto não iliba nem desculpa Madoff, claro. Mas é um problema que muitas vezes nos esquecemos ou preferimos ignorar. Preferimos atribuir a culpa toda aos Madoffes deste mundo – ele bem se queixa, com alguma razão, que foi transformado no bode expiatório de todo o sistema. Estes vigaristas aproveitam-se das fraquezas humanas, e uma delas é a ganância, um mal bastante disseminado e democratizado. Infelizmente.